Hormona Anti Mulleriana baixa e engravidar naturalmente: o que a investigação recente diz que ainda não chegou às consultas
- Bárbara Yu Belo
- 12 de mai.
- 8 min de leitura
Acontece com regularidade. Alguém entra em consulta com um papel na mão e uma expressão que aprendi a reconhecer. É o resultado da HAM, tirado há uma semana ou há dois meses, e há sempre uma variação da mesma frase: "o meu médico disse que a minha reserva ovárica está baixa e que tenho de agir depressa, se quiser engravidar."
Às vezes a pessoa tem 28 anos. Às vezes tem 35. Quase sempre o resultado está a ser lido como uma sentença, quando devia ser lido como uma peça de informação, entre várias, e com contexto.
Este artigo existe por causa destas situações, e por causa do que a investigação mais recente mostra com clareza crescente: a HAM é um marcador útil em contextos específicos, mas não é um teste de fertilidade natural. Usá-la para esse fim é clinicamente incorreto, e o impacto nas mulheres que recebem resultados baixos é real e documentado.

O que é a Hormona Anti Mulleriana e o que mede
HAM significa hormona antimülleriana. Nos resultados de laboratório é frequente aparecer como AMH, o acrónimo inglês (anti-Müllerian hormone), e são exatamente a mesma coisa.
É produzida pelas células que rodeiam os folículos pequenos nos ovários, e o seu valor no sangue é um dos indicadores usados para estimar a reserva ovárica, ou seja, o número de folículos que estão, por assim dizer, na sala de espera, prontos a ser recrutados num ciclo. A HAM não é o único marcador desta reserva: a contagem de folículos antrais na ecografia transvaginal e outros valores hormonais também fazem parte da avaliação completa.
Uma nota prática sobre unidades: os estudos internacionais que vamos citar ao longo deste artigo usam ng/mL (nanogramas por mililitro). Em alguns países, os laboratórios reportam habitualmente em pmol/L (picomoles por litro). O fator de conversão é: 1 ng/mL = 7,14 pmol/L. Sempre que indicarmos um valor, acrescentamos o equivalente nos dois sistemas.
A lógica intuitiva parece razoável: mais folículos na sala de espera, maior fertilidade. O problema é que esta lógica não se confirma nos dados, pelo menos quando falamos de conceção espontânea.
A HAM diz-te quantos folículos estão disponíveis para responder à estimulação com medicação, que é o que acontece num ciclo de FIV (fertilização in vitro). Para esse propósito, é um marcador bem validado. Para prever se vais engravidar num ciclo natural, a história é bastante diferente.
O que a investigação diz
A meta-análise de Lin e colaboradores, publicada em 2021 na Frontiers in Endocrinology, analisou 11 estudos com 4.388 mulheres e concluiu que a HAM tem fraco valor preditivo para gravidez natural. Níveis baixos não se associaram de forma consistente a menor fertilidade espontânea. Com quase quatro mil e quatrocentas mulheres e onze estudos, este não é um resultado fácil de ignorar.
Em 2024, Galati e colaboradores publicaram na Archives of Gynecology and Obstetrics um estudo com um design metodológico que merece atenção. Compararam 252 mulheres com infertilidade sem causa identificada com 252 mulheres cuja infertilidade tinha origem conhecida: fator masculino grave. Aqui o raciocínio é simples: se a HAM baixa afetasse a conceção natural, seria de esperar que o grupo sem causa identificada tivesse valores mais baixos do que o grupo com fator masculino, onde os ovários da mulher são, à partida, irrelevantes para o problema. Não foi isso que aconteceu. HAM abaixo de 0,7 ng/mL (5,0 pmol/L) apareceu em 10% das mulheres com infertilidade inexplicada e em 14% das com infertilidade masculina, uma diferença estatisticamente nula. A conclusão dos autores foi direta: a reserva ovárica não influencia a conceção natural, e médicos e doentes devem estar cientes disso para evitar aconselhamento inadequado.
O caso clínico de Fu e colaboradores, publicado em 2025 no Journal of Ovarian Research, coloca números concretos nesta discussão. Uma mulher com HAM de 0,072 ng/mL (0,51 pmol/L), um valor que a maioria dos laboratórios classificaria como negligenciável, recebeu aconselhamento sobre "prognóstico de fertilidade limitado" e foi orientada para reprodução assistida. Optou por tentar a conceção espontânea. Teve três gravidezes naturais e quatro filhos saudáveis. Um caso clínico não prova a regra, mas ilustra o que os estudos maiores já mostram: a HAM muito baixa não impede a conceção natural, e o aconselhamento que afirma o contrário não tem base na evidência disponível.
Em julho de 2025, um editorial na Fertility and Sterility com o título "Do not measure antimüllerian hormone to predict women's fecundity" (não meças a HAM para prever a fecundidade feminina) juntou-se às vozes que apontam para o mesmo problema: o teste é usado muito além do que a evidência suporta, e isso tem consequências para quem recebe os resultados.
A nuance que é importante referir
Seria mais confortável dizer que a literatura é uniforme. Mas não é.
Em dezembro de 2024, Nelson e colaboradores publicaram na Fertility and Sterility um estudo prospetivo com 3.150 mulheres a tentar engravidar. Encontraram uma associação entre HAM baixa (abaixo de 1 ng/mL, ou seja, abaixo de 7,14 pmol/L) e menor probabilidade de conceção, com uma redução de cerca de 23% na probabilidade por ciclo. O efeito é estatisticamente significativo e o estudo tem dimensão para o detetar.
Vale a pena notar que o estudo foi financiado pela Modern Fertility, uma empresa que vende testes HAM direto ao consumidor. Isso não invalida os resultados, mas é um dado de contexto pertinente. E o efeito encontrado, embora real, é modesto: uma redução de 23% na probabilidade de conceção por ciclo não é sinónimo de infertilidade.
A revisão de Peigné e colaboradores, publicada no Human Reproduction em 2023, confirmou associação entre HAM e nascido vivo em contexto de FIV e ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide), mas encontrou dados insuficientes para sustentar o mesmo tipo de associação em conceção espontânea sem reprodução assistida.
A leitura honesta da literatura, como um todo: a maioria dos estudos bem desenhados não apoia o uso da HAM como preditor isolado de fertilidade natural. Existe pelo menos um estudo de grande dimensão que encontrou uma associação modesta. A questão tem nuances que um número isolado num papel não consegue captar.
Onde a HAM tem valor real
Em reprodução medicamente assistida, a HAM ajuda a calibrar os protocolos de estimulação ovárica: perceber quantos folículos o ovário provavelmente vai produzir em resposta à medicação permite ajustar as doses e reduzir riscos como a síndrome de hiperestimulação ovárica. Para esse propósito, é um marcador útil e bem validado.
Pode ter papel também no diagnóstico de síndrome de ovário poliquístico (SOP), onde os valores tendem a ser elevados, e no acompanhamento de tratamentos que afetam os ovários, como a quimioterapia. Fora destes contextos, a evidência para uso de rotina é fraca.
Como ler o teu resultado de Hormona Anti Mulleriana de forma útil
Se recebeste um resultado de HAM baixa e estás a tentar engravidar naturalmente, o que isso significa é que tens menos folículos na sala de espera do que seria esperado para a tua idade. Não diz nada sobre a qualidade dos teus óvulos, não indica se ovulas ou não, e não determina se consegues conceber.
A HAM é um dos vários indicadores da reserva ovárica e precisa de ser lida em conjunto com outros dados: a tua idade, o teu padrão de ovulação, o teu histórico menstrual, os valores da hormona foliculo-estimulante (FSH), a contagem de folículos antrais numa ecografia transvaginal e, se for o caso, o tempo que já levas a tentar.
Um valor baixo numa mulher de 28 anos com ciclos regulares e ovulação confirmada tem um significado clínico muito diferente de um valor baixo numa mulher de 40 anos com ciclos irregulares. O resultado isolado, sem contexto, não te dá informação acionável.
Para guardares
Em cada ciclo, o teu corpo seleciona um único folículo dominante. Salvo raras exceções, é mesmo só um. A sala de espera pode ser pequena e esse folículo ainda lá estar, ainda amadurecer, e ainda produzir um óvulo capaz de ser fertilizado. A fertilidade natural não é um concurso de quantidade.
O que sabemos com segurança, com base na investigação atual:
A HAM é um dos indicadores da reserva ovárica, não um teste de fertilidade natural. A maioria dos estudos bem desenhados não apoia o seu uso isolado como preditor de conceção espontânea.
Uma HAM baixa pode antecipar uma janela reprodutiva mais curta, mas não equivale a infertilidade. O contexto clínico completo: idade, ovulação, histórico, ecografia, tempo de tentativa, é indispensável para interpretar qualquer resultado. Se precisares de FIV, a HAM é relevante para planear o tratamento; para conceção espontânea, o seu papel preditivo é, na melhor das hipóteses, modesto.
Um número num papel não é o teu futuro reprodutivo.
O teu corpo é a tua casa. Cada ciclo traz um óvulo, e esse óvulo é tudo o que precisa.
Perguntas frequentes:
A minha HAM é 0,5 ng/mL (3,6 pmol/L). Isso significa que não consigo engravidar naturalmente?
Não. Os estudos mais robustos mostram que HAM baixa não se associa de forma consistente a menor probabilidade de conceção espontânea. Significa que tens menos folículos em reserva, o que é relevante em contexto de FIV, mas não prediz bem o que acontece num ciclo natural.
O médico disse que tenho "reserva ovárica diminuída". É o mesmo que infertilidade?
Não é. Descreve uma característica dos ovários, avaliada por marcadores como a HAM e a contagem de folículos antrais na ecografia. Não descreve a tua capacidade de conceber.
Devo fazer o teste de HAM para "ver como está a minha fertilidade"?
Depende do objetivo. Para planear uma FIV ou avaliar a resposta esperada à estimulação ovárica, sim. Para avaliar a tua fertilidade natural de forma genérica, a evidência não suporta o uso de rotina. Um resultado baixo pode gerar ansiedade sem dar informação acionável.
A HAM sobe com suplementação ou mudanças no estilo de vida?
Há estudos preliminares sobre vitamina D, DHEA e outros suplementos, mas a evidência é fraca e os resultados inconsistentes. Qualquer promessa de "aumentar a HAM naturalmente" merece ceticismo e deve ser discutida com um profissional de saúde antes de qualquer decisão.
Porque é se ainda se usa a HAM para avaliar fertilidade natural, se a evidência não suporta isso?
Uma parte da resposta está na lógica intuitiva que o teste parece suportar. Outra parte pode estar em incentivos comerciais: o editorial de de Ziegler e colaboradores (2025) aponta que muitas clínicas continuam a oferecer o teste como avaliação de fertilidade apesar da evidência disponível. A disseminação lenta de investigação científica na prática clínica é um problema real, e não é exclusivo deste tema.
HAM baixa significa menopausa mais cedo?
Possivelmente, e este é um dos usos para os quais há evidência mais razoável. HAM baixa pode indicar que a reserva ovárica se esgotará mais cedo, o que antecipa o início da menopausa. Mas "mais cedo" é relativo, o calendário individual varia bastante, e não é uma previsão exata.
Referências
de Ziegler D, Sean S, Pirtea P. Do not measure antimüllerian hormone to predict women's fecundity. Fertility and Sterility. 2025 Jul 22:S0015-0282(25)00598-9. doi: 10.1016/j.fertnstert.2025.07.025. PMID: 40706650.
Fu Y, Huang B, Ma L, et al. Negligible serum anti-Müllerian hormone levels and successfully spontaneous pregnancy three times: a case report. Journal of Ovarian Research. 2025;18(1):57. doi: 10.1186/s13048-025-01640-3. PMID: 40102966.
Galati G, Reschini M, Chine' A, et al. Ovarian reserve does not influence natural conception: insights from infertile women. Archives of Gynecology and Obstetrics. 2024;310(5):2691-2696. doi: 10.1007/s00404-024-07741-6. PMC: PMC11485058.
Lin Y, Jing M, Zhu W, Tu X, Chen Q, Wang X, et al. The value of anti-Müllerian hormone in the prediction of spontaneous pregnancy: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Endocrinology. 2021;12:695157. doi: 10.3389/fendo.2021.695157. PMID: 34721287.
Nelson SM, Shaw M, Ewing BJ, McLean K, Vechery A, Briggs SF. Antimüllerian hormone levels are associated with time to pregnancy in a cohort study of 3,150 women. Fertility and Sterility. 2024;122(6):1114-1123. doi: 10.1016/j.fertnstert.2024.06.024. PMID: 38964587.
Peigné M, Bernard V, Dijols L, et al. Using serum anti-Müllerian hormone levels to predict the chance of live birth after spontaneous or assisted conception: a systematic review and meta-analysis. Human Reproduction. 2023;38(9):1789-1806. doi: 10.1093/humrep/dead147. PMID: 37475164.
Steiner AZ, Pritchard D, Stanczyk FZ, et al. Association between biomarkers of ovarian reserve and infertility among older women of reproductive age. JAMA. 2017;318(14):1367-1376. doi: 10.1001/jama.2017.14588. PMID: 29049585.




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