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Qualidade dos óvulos depois dos 35: o que a ciência descobriu

Os óvulos envelhecem mal? A ciência tem novidades fresquinhas


Já não é novidade que, por mais variadas razões, cada vez mais mulheres têm o objetivo de engravidar depois dos 35 anos. E com esta decisão surge, invariavelmente, a sombra da estatística: “a fertilidade cai a pique”, “os óvulos não têm qualidade”, “a partir dos 40 é quase impossível engravidar”.


É verdade que a biologia tem as suas regras e não podemos negar o impacto da idade na fertilidade. Mas a história não é tão linear como muitas vezes nos fazem acreditar. Novas investigações parecem demonstrar que os óvulos não são peças frágeis de porcelana em contagem decrescente. Pelo contrário: parecem ter mecanismos engenhosos para se protegerem dos efeitos da passagem do tempo.


qualidade-dos-óvulos-depois-dos-35-o-que-a-ciência-descobriuDois estudos recentes — um publicado na Science Advances e outro no The EMBO Journal — ajudam a redesenhar o mapa do que sabemos sobre o envelhecimento dos óvulos. E a história é bem mais surpreendente (e inteligente) do que se pensava.


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Óvulos e mutações: menos vulneráveis do que julgávamos


O primeiro estudo, publicado em agosto de 2025 na Science Advances (Arbeithuber et al.), analisou 80 óvulos de 22 mulheres entre os 20 e os 42 anos. Para comparação, estudaram também sangue e saliva das mesmas mulheres.

Usaram uma técnica chamada duplex sequencing (sequenciação duplex) — que funciona de uma forma parecida quando se verifica uma nota de banco à luz em ambos os lados: só se o defeito aparecer nos dois lados é que é real. Esta técnica permite eliminar “ruído” e ter a certeza de que uma mutação detetada é mesmo verdadeira.


O resultado é surpreendente, porque enquanto o sangue e a saliva destas mulheres mostraram aumento de mutações (alterações) com a idade, os óvulos não apresentaram esse padrão. De facto, os óvulos estudados continham 17 a 24 vezes menos mutações no ADN mitocondrial (mtDNA — o ADN das mitocôndrias, as nossas “baterias celulares”) do que os outros tecidos do corpo. Além disso, os óvulos parecem conter um mecanismo de seleção purificadora — uma espécie de uma triagem interna que descarta mutações nas regiões mais críticas do ADN das mitocôndrias.


Ou seja: ao contrário do que se pensava, os óvulos parecem manter o seu mtDNA relativamente estável ao longo do tempo - pelo menos até aos 42 anos, que foi o limite de idade estudado.

A integridade do mtDNA é fundamental porque as mitocôndrias vão fornecer energia para dois momentos críticos: o amadurecimento do óvulo e a primeira divisão celular após a fecundação. Se as mutações fossem muitas, seria como ter baterias avariadas logo no arranque. Saber que estas mutações não aumentam com a idade é como descobrir que o sistema elétrico dos óvulos é mais robusto do que suspeitávamos.


O “minimalismo metabólico” dos óvulos: poupar para durar


O segundo estudo, publicado em julho de 2025 no The EMBO Journal (Zaffagnini et al.), investigou a proteostase (a manutenção do “parque de proteínas” da célula) em mais de 100 óvulos de 21 mulheres jovens.

Aqui, os investigadores olharam para duas grandes máquinas:


  • Lisossomas — imagina-os como grandes contentores de lixo celular: recolhem proteínas velhas ou danificadas e decompõem-nas em pedaços reutilizáveis.

  • Proteassomas — são mais parecidos com linhas de montagem numa fábrica: recebem proteínas defeituosas e cortam-nas em pequenos fragmentos.


Estes investigadores descobriram que os óvulos usam estes mecanismos de uma forma muito mais lenta (e inteligente) do que as células vizinhas. Os investigadores viram uma atividade de reciclagem proteica de cerca de metade da das outras células. E, curiosamente, à medida que o óvulo amadurece, essa atividade baixa ainda mais.


Além disso, observaram que as mitocôndrias dos óvulos, as tais baterias celulares, trabalham em modo de baixa rotação, com menos energia armazenada na membrana (o chamado “potencial de membrana”).


Porque é que esta informação é tão importante?


Ora pensa comigo:

Se a célula estivesse sempre a reciclar proteínas em alta velocidade e a obrigar as mitocôndrias a funcionar no máximo, iria produzir mais ROS (espécies reativas de oxigénio), que são moléculas instáveis que funcionam como faíscas de um motor e que, no fundo, é o que provoca o stress oxidativo dos tecidos. Em linguagem automobilística, digamos que estas faíscas podem queimar os cabos, corroer peças, enferrujar o sistema.


Por outro lado, ao reduzir a velocidade destas máquinas, os óvulos geram menos “fumo tóxico” e conseguem preservar-se durante décadas.

É contraintuitivo: esperaríamos que os óvulos apostassem em limpar e reparar tudo de forma intensiva. Mas afinal fazem o oposto: trabalham menos, fazem menos, para durar mais. É uma estratégia de minimalismo metabólico — quase como um estilo de vida “low carbónico”.


Como juntar estas duas peças:

Postas lado a lado, estas descobertas contam uma história fascinante:


  • No mtDNA, os óvulos parecem proteger-se ativamente de mutações, mantendo-se surpreendentemente estáveis.

  • No metabolismo interno, optam por uma postura de baixo consumo energético, evitando desgaste oxidativo.


Ou seja, os óvulos não são apenas vítimas passivas do tempo. Têm estratégias próprias de sobrevivência, que lhes permitem manter-se viáveis por décadas — desde a vida fetal até à ovulação.


O que não muda com esta informação


Não podemos cair na tentação de achar que a idade deixou de importar. É uma realidade imutável que o risco de aneuploidias cromossómicas sobe após os 35 anos — e esse continua a ser o maior entrave para engravidar naturalmente ou mesmo com ajuda médica.

Mas podemos ler estes resultados como uma boa notícia: o “envelhecimento” dos óvulos não é uma sentença uniforme. É antes um mosaico: alguns processos deterioram-se depressa, outros mostram resistência notável.


E para quem deseja engravidar mais tarde, este conhecimento traz algumas luzes: talvez a chave passe por apoiar os óvulos, não tanto no combate a mutações mitocondriais (que afinal não aumentam tanto), mas naquilo que de facto pesa, como apoiar a qualidade do folículo, reduzir stress oxidativo, cuidar de todas as fases do ciclo e otimizar o ambiente metabólico e vascular.


Em suma: os óvulos humanos são mestres em duas artes discretas: proteger o mtDNA e abrandar o metabolismo. Não nos livram das regras da idade, mas mostram que a natureza sabe usar truques subtis para preservar o essencial. Talvez haja aqui lições não só para a biologia, mas também para nós: às vezes, fazer menos é a forma mais inteligente de durar mais.


Glossário:


  • mtDNA (DNA mitocondrial): ADN das mitocôndrias, herdado apenas da mãe. Cada óvulo pode ter mais de 100.000 cópias.

  • Proteostase: gestão do “stock” de proteínas — inclui vigilância, reciclagem e reparação.

  • Lisossomas e proteassomas: centros de reciclagem de proteínas nas células. Os lisossomas são “grandes contentores”, os proteassomas são “linhas de montagem” rápidas.

  • ROS (espécies reativas de oxigénio): moléculas instáveis, como “faíscas” de um motor, que em excesso causam “ferrugem” biológica (oxidação)

  • Aneuploidia: erros no número ou estrutura dos cromossomas no DNA nuclear.



Referências:



 

 
 
 

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