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Os teus ovários são simpáticos (literalmente) 

Descobriu-se recentemente que os ovários têm nervos simpáticos. E não, não é uma metáfora sobre serem "bonzinhos" — embora, convenhamos, mereçam todo o nosso carinho. Estou a falar do sistema nervoso simpático, aquele que nos põe em modo "lutar ou fugir" quando estamos stressadas. 


Pois é. Os teus ovários sentem. E respondem. E conversam ativamente com o teu sistema nervoso. 

Esta descoberta, publicada em outubro de 2025 na revista Science, faz parte de um estudo monumental que está a mudar completamente a forma como compreendemos o envelhecimento reprodutivo.  

 

O estudo que virou tudo do avesso 

Investigadores da Universidade da Califórnia desenvolveram uma técnica de imagem 3D revolucionária que lhes permitiu observar ovários inteiros — de ratinhos e humanos — sem os cortar em fatias. Pela primeira vez, conseguiram ver tudo em contexto: os óvulos, as células que os rodeiam, os nervos, os vasos sanguíneos. 

E o que viram mudou o jogo. 


Durante décadas, fomos ensinadas que os ovários são meros "contentores" de óvulos que vão diminuindo em quantidade e qualidade. Fim da história. Mas esta investigação mostra que os ovários não são sacos passivos. São ecossistemas complexos, dinâmicos e influenciáveis. 

 

Descoberta 1: Os ovários têm sistema nervoso (e ele manda) 

Descobriram células gliais nos ovários — células de suporte dos nervos que normalmente só vemos no cérebro. E mais: os nervos simpáticos (sim, os do stress) formam redes densas nos ovários. E estas redes tornam-se ainda mais densas com a idade. 


A parte mais fascinante? Quando eliminaram estes nervos em ratinhos, os animais tinham mais óvulos em reserva, mas menos que amadureciam. 

Isto significa que o sistema nervoso ajuda a decidir quando os óvulos começam a crescer. 


Não é apenas uma coincidência que o stress crónico afete a fertilidade. Há uma ligação direta, celular, mensurável: o teu sistema nervoso — o mesmo que responde à ansiedade, ao sono, ao stress — está ativamente envolvido na maturação dos teus óvulos. 

 

Descoberta 2: Os óvulos vivem em "bairros" 

Os óvulos não estão espalhados uniformemente pelos ovários, como se pensava. Organizam-se em "bolsas" ou clusters, cada uma com o seu microambiente próprio. 

É como se cada óvulo vivesse num bairro diferente da cidade, com condições diferentes: uns têm mais espaços verdes, outros têm melhor acesso a transportes, outros têm ar mais poluído. 

Imagina um jardim: não basta ter boas sementes. O solo, a água, a luz, os nutrientes à volta de cada planta fazem toda a diferença no resultado final. O mesmo acontece com os óvulos. 

 

Descoberta 3: A inflamação ataca os ovários primeiro 

As células de suporte nos ovários (fibroblastos) mudam com a idade e desencadeiam inflamação e cicatrização — e fazem-no anos antes de isto acontecer noutros órgãos como os pulmões ou o fígado. 

Os ovários envelhecem mais depressa que o resto do corpo. É injusto? Talvez. Mas há uma boa notícia escondida aqui: se a inflamação é um dos culpados, então temos margem de manobra. 

Um estilo de vida anti-inflamatório pode ter um impacto direto e mensurável na saúde ovárica. 

 

Descoberta 4: Os vasos sanguíneos também contam a história 

O estudo identificou que a saúde dos vasos sanguíneos nos ovários se deteriora com a idade, afetando a entrega de nutrientes e oxigénio aos folículos. 

Isto significa que cuidar da saúde cardiovascular não é apenas para prevenir doenças cardíacas. É também sobre garantir que os ovários recebem o que precisam. A circulação sanguínea nos ovários importa tanto quanto no coração. 

 

É preciso um ecossistema inteiro para criar um óvulo. 

Estas descobertas encaixam-se perfeitamente com o que já sabemos (e já falei aqui no blog): os óvulos têm estratégias inteligentes de sobrevivência, protegem o seu ADN mitocondrial e trabalham em "modo minimalista" para durar décadas. 

Mas agora percebemos que o contexto à volta dos óvulos importa tanto quanto os próprios óvulos. 

É como ter uma casa bem construída (o óvulo) num bairro bem cuidado (o ecossistema ovárico). Ambos são importantes. Ambos se influenciam mutuamente. 


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O que isto muda na prática 

Esta investigação não nega que a idade importa. O risco de aneuploidias cromossómicas (erros no número de cromossomas) aumenta após os 35 anos, e esse continua a ser um desafio real. 


Mas a história não é uniforme. O envelhecimento ovárico não é uma sentença única e imutável. É um mosaico: alguns processos deterioram-se, outros mostram resistência, e há margem real para influenciar o sistema. 

Se os ovários são ecossistemas influenciados por nervos, inflamação, vasos sanguíneos e células de suporte, então há coisas concretas que podemos fazer: 

 

1. Regular o sistema nervoso não é conversa fiada 

O stress crónico ativa o sistema nervoso simpático. E agora sabemos que esse sistema está diretamente ligado à forma como os óvulos amadurecem. 

Práticas de regulação nervosa — respiração consciente, sono de qualidade, pausas genuínas, segurança emocional — não são luxos. São ferramentas que podem influenciar os ovários. Literalmente. 

 

2. Reduzir a inflamação crónica 

Alimentação anti-inflamatória, movimento regular, gestão do sono, redução de toxinas ambientais — tudo isto pode estar a proteger o microambiente dos teus ovários. 

Não é apenas "saúde geral". É saúde ovárica específica. E como os ovários envelhecem mais depressa que outros órgãos, este cuidado pode fazer ainda mais diferença. 

 

3. Cuidar da saúde cardiovascular 

Garantir boa circulação através de exercício, hidratação adequada, nutrição que apoie os vasos sanguíneos e controlo de fatores como a tensão arterial pode fazer diferença na forma como os nutrientes chegam aos folículos. 

Os ovários precisam de sangue rico em oxigénio e nutrientes, tanto quanto qualquer outro órgão. 

 

4. Apoiar o ambiente metabólico 

Equilíbrio glicémico, suporte mitocondrial através de antioxidantes, nutrientes essenciais — tudo isto contribui para o "bairro" onde os óvulos vivem. 

Mudar o paradigma 

O discurso sobre fertilidade feminina tem sido, durante demasiado tempo, assustador e fatalista. Como se as mulheres fossem produtos com prazo de validade. 


Mas a ciência está a mostrar-nos outra coisa. 


Os ovários são órgãos extraordinariamente complexos, influenciados por múltiplos sistemas do corpo. Os óvulos têm estratégias próprias de proteção. E há margem — real, mensurável, científica — para cuidado e influência. 


Não vamos fingir que a idade não importa. Importa. Mas também importa o que fazemos com essa informação. 


Podemos continuar a perpetuar narrativas de pânico e impotência. Ou podemos olhar para o corpo feminino com o respeito e a admiração que ele merece — reconhecendo a sua complexidade e as oportunidades reais que temos para o apoiar. 


Os ovários são simpáticos. No sentido literal e figurado. Tratemo-los como tal. 

 

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Porque o teu corpo merece ser compreendido, respeitado e apoiado. 

 

Glossário 


Aneuploidia: Erros no número ou estrutura dos cromossomas. Aumentam com a idade materna e são a principal causa de embriões não viáveis. 

Células gliais: Células de suporte dos nervos, geralmente associadas ao cérebro, mas também presentes nos ovários. 

Fibroblastos: Células de suporte que produzem colagénio e outras proteínas estruturais. Nos ovários, mudam com a idade e podem contribuir para inflamação e fibrose. 

Nervos simpáticos: Parte do sistema nervoso autónomo, responsável pela resposta de "luta ou fuga". Estão presentes nos ovários e influenciam quando os óvulos amadurecem. 

Microambiente: O "bairro" imediato à volta de cada óvulo, incluindo células de suporte, vasos sanguíneos, nervos e matriz extracelular. 

 

Referências 

Gaylord EA, Foecke MH, Samuel RM, et al. Comparative analysis of human and mouse ovaries across age. Science. 2025;385(6705). DOI: 10.1126/science.adx0659 


Hirano M, Onodera T, Takasaki K, et al. Ovarian aging: pathophysiology and recent developments in maintaining ovarian reserve. Frontiers in Endocrinology. 2025;16:1619516. DOI: 10.3389/fendo.2025.1619516 


Zhang Y, et al. Molecular and genetic insights into human ovarian aging from single-nuclei multi-omics analyses. Nature Aging. 2024. DOI: 10.1038/s43587-024-00762-5 


Guo Y, et al. Ovarian microenvironment: challenges and opportunities in protecting against chemotherapy-associated ovarian damage. Human Reproduction Update. 2024;30:614-647. DOI: 10.1093/humupd/dmae020 

 
 
 

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