Tu não controlas o teu ciclo!
- Bárbara Yu Belo
- 25 de nov. de 2024
- 3 min de leitura
E, no fundo, isso pode ser a melhor coisa que já ouviste.
"Uma forma muito eficaz de controlar as mulheres é convencê-las a controlarem-se a si próprias."— Glennon Doyle
Quantas vezes já ouviste frases como: "Quero controlar o meu ciclo." ou "Preciso de aprender a controlar-me."? Estas expressões tornaram-se tão comuns que muitas vezes não paramos para refletir sobre o que realmente significam. Ao longo da minha prática profissional, nos acompanhamentos que realizo, tenho observado como este desejo de controlo está profundamente enraizado na forma como tantas mulheres olham para o seu corpo e para o seu ciclo.
Fomos educadas para acreditar que precisamos de estar no comando, de manter tudo sob controlo. Fomos ensinadas a ser "boas meninas" – a não fazer alarido, a cumprir regras, a não perturbar a ordem estabelecida. Esta necessidade de controlo reflete-se na forma como vivemos o ciclo menstrual: como algo que precisa de ser domado, ajustado, manipulado.
Mas será que é realmente isso que o nosso ciclo nos pede?
Hormonas, neurotransmissores... e o desconforto
Na primeira metade do ciclo, quando os níveis de estrogénio estão elevados, é frequente experimentarmos uma combinação química que nos faz sentir mais leves, produtivas e capazes. O glutamato, um neurotransmissor excitatório essencial no cérebro, encontra-se em níveis mais elevados, facilitando a comunicação entre os neurónios, promovendo alerta, energia e foco. Juntamente com a dopamina e a serotonina, ele alimenta o bem-estar, o entusiasmo e até a sensação de capacidade ilimitada. É fácil sentir que "estamos no controlo" nesta fase.
Mas após a ovulação, a subida da progesterona e a descida do estrogénio alteram este cenário. Os neurotransmissores de excitação diminuem, e o GABA – o neurotransmissor da calma e do foco – assume um papel central. Este momento não é uma causa de irritabilidade ou desconforto, como tantas vezes se ouve. O GABA não nos irrita, ele chama-nos à terra, convida-nos à presença e ao descanso. O desconforto surge porque somos confrontadas com aquilo que evitamos quando estamos na aceleração constante da primeira fase do ciclo.
É nesta pausa, neste abrandar, que muitas vezes nos deparamos com a nossa realidade interna: questões não resolvidas, emoções reprimidas e a verdade nua e crua que a nossa progesterona nos apresenta sem filtros. Este não é um momento de fraqueza, mas de um convite profundo à reflexão e à consciência.

O controlo como uma armadilha
Acreditar que podemos controlar o ciclo é, na verdade, uma falácia. Não apenas porque o controlo absoluto é impossível, mas porque esta ideia nos desvia do verdadeiro propósito do ciclo: observar, acompanhar e viver.
Quando tentamos controlar, perdemos muita informação pelo caminho. Rejeitamos os sintomas que consideramos desconfortáveis, evitamos as emoções mais intensas e resistimos às mensagens que o nosso corpo nos traz - perdemos a oportunidade de nos aproximarmos daquilo que realmente somos.
O ciclo, em vez de ser algo a manipular, é um espelho. Ele devolve-nos uma imagem verdadeira de quem somos – completas, ainda que imperfeitas. Este reflexo pode ser desconfortável, mas é exatamente esse desconforto que nos permite crescer e aceitar a nossa própria essência.
Um convite vindo do âmago
O ciclo não é um inimigo, nem algo que precisa de ser controlado. É um convite – ou talvez uma mensagem – que emerge do nosso âmago, do núcleo mais autêntico e verdadeiro de quem somos. O convite para um regresso ao que já está dentro de nós. Um regresso com consciência e liberdade.
Quando aceitamos este convite, permitimo-nos ver quem realmente somos, completas, sem necessidade de buscar externamente aquilo que já possuímos. O ciclo mostra-nos, fase a fase, que temos tudo o que precisamos.
Aceitar em vez de controlar
O ciclo menstrual é muito mais do que algo a ser controlado. Ele é um convite a observar, acompanhar e viver cada fase com abertura e coragem. Não se trata de um processo perfeito ou fácil, mas sim de um caminho que nos desafia a aceitar a vida como ela é – com os seus altos e baixos, com as suas mensagens cruas e, acima de tudo, com o poder que nos devolve.
Quando largamos o controlo, abrimos espaço para uma conexão verdadeira com o que somos. Ganhamos consciência, liberdade e a possibilidade de viver plenamente, sem a necessidade de buscar fora aquilo que já temos dentro.
"O que o mundo precisa são mais mulheres que deixaram de ter medo de si mesmas e começaram a confiar em si mesmas. O que o mundo precisa são massas de mulheres totalmente fora de controlo."— Glennon Doyle




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